Henrique VIII de Inglaterra

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Nota: Se procura peça teatral de Shakespeare, consulte Henry VIII.

Henrique VIII
Rei de Inglaterra (mais...)
Henrique VIII por Hans Holbein, o Jovem, 1536
Reinado 21 de Abril de 150928 de Janeiro de 1547
Coroação 24 de Junho de 1509
Títulos Cavaleiro da Ordem do Banho
Duque de York (1494-1509)
Cavaleiro da Ordem da Jarreteira
Duque da Cornualha (1502-1509)
Príncipe de Gales (1502-1509)
Defensor da Fé
Nascimento 28 de Junho de 1491
Palácio de Placentia, Greenwich, Inglaterra
Morte 28 de Janeiro de 1547 ({{#expr:(1547)-(1491)-((1)<(6)or(1)=(6)and(28)<(28))}} anos)
Palácio de Whitehall, Londres
Antecessor Henrique VII
Sucessor Eduardo VI
Consorte Catarina de Aragão (1509-1533)
Ana Bolena (1533-1536)
Joana Seymour (1536-1537)
Ana de Cleves (1540)
Catarina Howard (1540-1542)
Catarina Parr (1543-1547)
Filhos Maria I
Isabel I
Eduardo VI
Dinastia Tudor
Pai Henrique VII
Mãe Isabel de Iorque

Henrique VIII Tudor (28 de Junho de 149128 de Janeiro de 1547) foi rei de Inglaterra a partir de 21 de Abril (coroado a 24 de Junho de 1509) até à sua morte. Foi-lhe concedido o título de rei da Irlanda pelo Parlamento Irlandês em 1541, tendo obtido anteriormente o título de Lorde da Irlanda.

Foi o segundo monarca da dinastia Tudor, sucedendo a seu pai, Henrique VII. Famoso por ter se casado seis vezes e por exercer o poder mais absoluto entre todos os monarcas ingleses. Entre os feitos mais notáveis de seu reinado se inclui sua ruptura com a Igreja Católica Romana, e seu estabelecimento como líder da Igreja da Inglaterra (ou Igreja Anglicana), a dissolução dos monastérios, e a união da Inglaterra com Gales.

Também promulgou legislações importantes, como as várias atas de separação com a Igreja de Roma, de sua designação como Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra, as Union Acts de 1535 e 1542, que unificaram a Inglaterra e Gales como uma só nação, a Buggery Act de 1533, primeira legislação contra a sodomia na Inglaterra, a Witchcraft Act de 1542, que castigava com a morte a bruxaria, "por invocar ou conjurar a um espírito demoníaco".

Índice

[editar] Primeiros anos

Nascido em Greenwich, no palácio de Placentia, Henrique VIII foi o terceiro filho de Henrique VII e Isabel de York. Somente três de seus seis irmãos sobreviveram à infância: Artur, príncipe de Gales, Margarida Tudor e Maria Tudor, rainha consorte da França.

Seu pai, membro da Casa de Lancaster, adquiriu o trono por direito de conquista, já que seu exército derrotou ao último Plantageneta, o Rei Ricardo III, e posteriormente completou seus direitos desposando a Isabel, filha do Rei Eduardo IV. Em 1493, o jovem Henrique foi designado uma espécie de "guardião" do Castelo de Dover e Lord Warden da confederação chamada de "cinco portas". Em 1494 foi nomeado Duque de York, e posteriormente comissário principal da Inglaterra e Lord tenente da Irlanda, enquanto ainda era um menino.

Em 1501 assistiu ao casamento de seu irmão mais velho, Artur, com Catarina de Aragão. O casal tinha quinze e dezasseis anos respectivamente na época. Os dois foram enviados por um tempo a Gales, como costumavam fazer com o herdeiro do trono e sua esposa, mas Artur contraiu maleita e morreu em 2 de abril de 1502. Em consequência disto, aos onze anos de idade, Henrique, Duque de York herdou o direito ao trono inglês, e como tal, pouco depois foi nomeado príncipe de Gales.

[editar] Primeiro casamento

As negociações sobre o direito de viuvez de Catarina se arrastaram por um ano. O rei não lhe cedia o direito previsto no contrato, um terço da renda de Gales, Cornualha e Chester, porque não havia recebido a segunda parte do dote de Catarina, e os pais de Catarina não a deixavam voltar para a Espanha sem o direito garantido. Desta forma, Catarina manteve-se hostilizada pela corte em um país estrangeiro, sem bens e com uma pequena remuneração. Determinada a ser rainha da Inglaterra, Catarina aceitou o pedido de casamento do rei, que acabara de ficar viúvo. Para que não houvesse dúvida quanto à legitimidade do casamento, o rei requereu uma dispensa papal, baseada na não consumação do casamento dela com seu primogénito. Ao tomar ciência que seus herdeiros não teriam preferência sobre Henrique na coroa de Inglaterra, e com o apoio de seus pais, Catarina recusou o pedido do rei, o que lhe deixou enfurecido. O embaixador espanhol comunicou o rei que os reis espanhóis exigiam o noivado de Catarina e o príncipe de Gales. O rei cedeu, sem intenção de honrar o compromisso firmado por uma criança de doze anos.

Realeza Inglesa
Casa de Tudor

Henrique VII
Descendência
Artur, Príncipe de Gales
Margarida, Rainha da Escócia
Henrique Tudor(futuro Henrique VIII)
Isabel Tudor
Maria, Rainha de França
Edmundo, Duque de Somerset
Henrique VIII
Descendência
Henrique, Duque da Cornualha
Maria Tudor (futura Maria I)
Isabel Tudor (futura Isabel I)
Eduardo (futuro Eduardo VI)
Eduardo VI
Maria I
Isabel I

Em 1505, Henrique VII perdeu seu interesse em manter a aliança com a Espanha, e o jovem príncipe de Gales foi obrigado a declarar que o compromisso havia sido arranjado sem seu consentimento. Porém, as negociações diplomáticas a respeito do casamento continuaram até a morte de Henrique VII em 1509. Em seu leito de morte, o rei disse ao seu filho que ele estava livre para se casar com quem quisesse. Encantado com Catarina desde a infância e certo que a segurança da Inglaterra dependia de um aliança tríplice entre Espanha, Inglaterra e o Imperador, no dia 11 de junho de 1509, com apenas dezassete anos, Henrique, casou-se com a viúva de seu irmão, Catarina de Aragão, com 23 anos. No dia 24 de junho do mesmo ano, ambos foram coroados respectivamente rei e rainha da Inglaterra na Abadia de Westminster. A primeira gravidez da rainha Catarina terminou em aborto em 1510. Logo deu a luz a um bebê do sexo masculino, chamado Henrique, em 11 de janeiro de 1511, mas o bebé só viveu até 22 de fevereiro do mesmo ano.

[editar] Início do reinado

Henrique VIII em 1509 com 18 anos
Henrique VIII em 1509 com 18 anos

Com sua coroação, Henrique VIII teve que enfrentar as problemáticas consequências dos impostos nobiliários estabelecidos por Richard Empson e Edmund Dudley, membros do gabinete de seu pai. Fez prender a ambos na Torre de Londres, e posteriormente os decapitou. Esta foi uma das muitas maneiras em que se diferenciou dos princípios de Henrique VII. Outra diferença se fez notória pela inclinação bélica de Henrique VIII, enquanto seu predecessor tinha favorecido políticas pacíficas.

Durante os dois anos posteriores à ascensão de Henrique VIII, o bispo de Winchester, Richard Fox, junto a William Warham controlaram os assuntos do Estado. De 1511 em diante o poder real foi ostentado por Thomas Wolsey. Em 1511, Henrique se uniu à Liga católica, formada pelos dirigentes europeus opostos ao rei Luís XII da França. A liga incluía figuras como o Papa Júlio II, o Imperador do Sacro Império Romano, Maximiliano I, e o rei Fernando II da Espanha, com quem Henrique assinou o tratado de Westminster. Henrique se uniu pessoalmente ao exército, e cruzou o Canal da Mancha até a França, onde tomou parte das emboscadas e batalhas.

Em 1514, Fernando II abandonou a aliança, e as outras partes fizeram paz com a França. A consequente irritação com a Espanha iniciou a discussão sobre o divórcio com a rainha Catarina. Entretanto, com a ascensão em 1515 do rei Francisco I ao trono da França, Inglaterra e França aumentaram seu antagonismo, e Henrique se reconciliou com o rei da Espanha. Em 1516 a rainha Catarina deu à luz uma menina, Maria, renovando as esperanças de Henrique de poder ter um herdeiro varão, apesar dos prévios fracassos de sua esposa.

Fernando II morreu em 1516, para ser sucedido por seu neto, (e sobrinho da rainha Catarina), Carlos V. Em outubro de 1518, Wolsey tinha desenhado o Tratado de Londres com o papado, com a ideia de conseguir um triunfo para a diplomacia inglesa, colocando a Inglaterra no centro de uma nova aliança europeia com o objetivo de repelir as invasões mouriscas na Espanha, tal como tinha solicitado o Papa.

Maximiliano morreu em 1519, e Wolsey, que era Cardeal da igreja católica, propôs secretamente o nome de Henrique como candidato para o posto de Imperador do Sacro Império Romano, apesar de que publicamente parecia apoiar o rei francês, Francisco. Finalmente, Carlos da Espanha foi o eleito pelos príncipes eleitores. A rivalidade subsequente entre França e Espanha permitiu a Henrique atuar como mediador. Tanto Francisco como Carlos V tentaram gozar do favor de Henrique VIII. Depois de 1521 a influência inglesa sobre a Europa começou a minguar. Henrique entrou em uma aliança com Carlos V através do tratado de Bruges, e Francisco I foi derrotado pelo exército imperial de Carlos na Batalha de Pavia, em fevereiro de 1525. A confiança do Imperador em Henrique diminuiu no mesmo ritmo que o poder inglês sobre o continente. Henrique se mostrou contrariado em ajudá-lo a conquistar a flor-de-lis, apesar das garantias de Carlos. Isto terminou com o Tratado de Westminster, em 1527.

O interesse de Henrique nos assuntos europeus estendeu-se até o ataque contra a revolução alemã de Lutero. Em 1521, Henrique VIII chegou a escrever um pequeno livro intitulado "Defesa dos 7 Sacramentos" que fez com que Leão X lhe outorgasse o título de "Defensor da Fé" (Defensor Fidei).

[editar] A questão real

Catarina de Aragão, primeira esposa de Henrique VIII
Catarina de Aragão, primeira esposa de Henrique VIII

A coroação de Henrique VIII foi a primeira pacífica da Inglaterra em muitos anos; entretanto, a legitimidade da dinastia Tudor tinha que ser posta a prova. O povo inglês parecia descontente com as regras de sucessão feminina, e Henrique sentiu que só um herdeiro masculino poderia assegurar o trono. A rainha Catarina ficou grávida pelo menos sete vezes (a última vez em 1518), mas só uma das crianças, a princesa Maria, sobreviveu à infância. Henrique tinha ficado com várias concubinas, incluindo Maria Bolena e Isabel Blount, com quem tinha tido um filho ilegítimo, Henry Fitzroy, primeiro duque de Richmond e Somerset. Em 1526, quando ficou claro que a rainha Catarina não poderia ter mais filhos, Henrique começou a perseguir a irmã de Maria Bolena, Ana Bolena. Ainda que não hajam dúvidas de que a motivação principal de Henrique para se divorciar de Catarina fosse o seu desejo de ter um herdeiro homem, o rei ficou empolgado com Ana, apesar de sua inexperiência infantil e seu pouco poder de atração.

A insistente tentativa do rei em terminar o seu casamento com a rainha Catarina foi apelidada de "A questão real". O cardeal Wolsey e William Warham começaram secretamente a investigar a validade do casamento. Obviamente, a rainha Catarina tinha testemunhado que seu matrimónio com Artur, Príncipe de Gales, não havia sido consumado, e portanto isso não foi impedimento para o subsequente casamento com Henrique. Sem informar o cardeal Wolsey, Henrique apelou diretamente à Santa Sé. Enviou o seu secretário William Knight a Roma para anular a Bula de Júlio II, Bula pela qual foi permitido o casamento entre Henrique VIII e Catarina de Aragão argumentando que ela, a Bula, havia sido obtida mediante enganos, e era consequentemente nula. Além disto, pedia ao Papa Clemente VII que lhe outorgasse uma dispensa para permitir casar-se com qualquer mulher, inclusive escolhendo por grau de afinidade. Esta dispensa era necessária, já que Henrique havia previamente tido relações com a irmã de Ana Bolena, Mary. Knight encontrou-se com o Papa Clemente VII, que era praticamente prisioneiro do Imperador Carlos V. Teve dificuldades até em falar com o Papa, e quando finalmente o fez, não conseguiu os resultados que procurava. Clemente VII não estava de acordo com a anulação do matrimónio, mas concedeu a dispensa, presumindo que a mesma não teria muito efeito enquanto Henrique tivesse que permanecer casado com Catarina.

Informado do ocorrido pelo representante do Rei, o Cardeal Wolsey enviou Stephen Gardiner e Edward Fox a Roma. Talvez temendo o sobrinho de Catarina, (o Imperador Carlos V), o Papa Clemente inicialmente evitou atendê-los. Fox foi enviado de volta com uma comissão autorizando o início de um processo, mas as restrições impostas tornavam-na praticamente insignificante.

Ana Bolena, segunda esposa de Henrique VIII
Ana Bolena, segunda esposa de Henrique VIII

Gardiner procurou formar uma comissão executiva que decidisse com antecedência os pontos legais a discutir. Clemente VII foi persuadido a aceitar tal proposta, e permitiu ao cardeal Wolsey e ao cardeal Lorenzo Campeggio levar o caso juntos. A comissão actuou em segredo. A comissão estabeleceu que a Bula Papal autorizando o casamento de Henrique com Catarina seria declarada nula se as alegações em que se baseava se demonstrassem falsas. Por exemplo, a Bula seria nula se resultasse falso que o matrimónio havia sido absolutamente necessário para manter a aliança anglo-espanhola.

O cardeal Campeggio chegou a Inglaterra em 1528. Os procedimentos, entretanto, foram paralisados quando os espanhóis emitiram um segundo documento que presumia o outorgamento da necessária dispensa. Assegurava-se que, uns poucos meses antes de outorgar a dispensa numa Bula pública, o Papa Júlio II tinha outorgado o mesmo numa nota privada enviada a Espanha. A comissão não autorizou os cardeais Wolsey e Campeggio a determinar a validade da nota, e durante oito meses, as partes discutiam sobre a sua autenticidade. Durante a primavera de 1529, uma equipa jurídica de Henrique VIII completou o sumário dos argumentos reais incluindo o Levítico 20, 21.

Enojado com o cardeal Wolsey pela demora, Henrique destituiu-o de seus poderes e riqueza. Acusou-o de "præmunire" (rebaixar a autoridade do Rei investindo a representação papal), mas Wolsey morreu pouco tempo depois. Com o Cardeal Wolsey caíram outros poderosos membros da Igreja na Inglaterra. O poder passou então para Sir Thomas More como novo Lord Chanceler, a Thomas Cranmer como novo arcebispo de Canterbury e a Thomas Cromwell como primeiro conde de Essex e Secretário de Estado da Inglaterra.

[editar] Segundo casamento

Anglicanismo
Bases

King James Version ·  Cristianismo ·  Catolicismo ·  Calvinismo ·  Sucessão apostólica ·  Reforma Inglesa ·  Protestantismo

Pessoas

Mártires ·  John Wycliffe ·  William Tyndale ·  Henrique VIII ·  Thomas Cranmer ·  Thomas Cromwell ·  Isabel I ·  Richard Hooker ·  William Laud ·  Carlos I ·  Santos

Liturgia e Culto

Livro de Oração Comum ·  Alta Igreja ·  Baixa Igreja ·  Igreja geral ·  Movimento de Oxford ·  Trinta e Nove Artigos de Religião ·  Homilias ·  Doutrina ·  Ministério ·  Sacramentos

Organização

Comunhão Anglicana Instrumentos da Comunhão:
Arcebispo da Cantuária ·  Conferências de Lambeth ·  Encontros das Primazes ·  Conselho Consultivo Anglicano


Comunhão Internacional da Igreja Anglicana Ortodoxa

Em 25 de janeiro de 1533, o arcebispo de Cantuária, Thomas Cranmer, participou do casamento entre Henrique e Ana Bolena. Em maio, foi anunciado a anulação do matrimónio com Catarina, e pouco depois é declarado válido o matrimónio com Ana. A Princesa Maria (futura rainha Maria I de Inglaterra) foi rebaixada a filha ilegítima, e substituída como provável herdeira pela nova filha de Ana, Isabel (a futura rainha Isabel I de Inglaterra). Catarina perdeu o título de "Rainha", e se converteu na Princesa viúva de Gales; Maria deixou de ser "Princesa de Gales", para passar a ser uma simples "Lady". Catarina de Aragão morreu de em 1536 de causas ainda não muito claras (há quem diga que ela padecia de cancro ou que foi envenenada).

Esta atitude de afronta sem precedentes à Igreja Católica valeu-lhe a excomunhão, declarada por Clemente VII em 11 de Julho de 1533. No seguimento da excomunhão, Henrique decidiu o rompimento com a Igreja Católica Romana, declarou a dissolução dos monastérios, tomando assim muitos dos haveres da Igreja, e formou a Igreja Anglicana (Church of England), da qual se declarou líder. Esta decisão tornou-se oficial com o decreto de supremacia (Act of Supremacy) de 1534. A recusa em jurar obediência a este decreto levou-o a condenar o humanista Thomas More, seu antigo Lord Chanceler, à morte.

[editar] Agitação religiosa

O Papa respondeu a estes acontecimentos excomungando Henrique VIII em julho de 1533. Seguiu-se uma considerável agitação religiosa. Liderados por Thomas Cromwell, o parlamento aprovou várias atos que selaram a brecha com Roma na primavera de 1534. O Estatuto de restrição de apelações ("Statute in Restraint of Appeals") proibiu as apelações das cortes eclesiásticas ao Papa. Também preveniu que a Igreja decretasse qualquer tipo de regulação sem prévio consentimento do Rei. A Acta de designações eclesiásticas (Ecllesiastical Appointments Act) de 1534, decretou que os clérigos eleitos para bispos deveriam ser nomeados pelo soberano. O Ato de Supremacia (Act of Supremacy) do mesmo ano, declarou que "o Rei era o único Chefe Supremo na Terra da Igreja da Inglaterra". O Ato de Traição (Treasons Act), também de 1534, converteu em alta traição, castigada com a morte, não reconhecer a autoridade do Rei, entre outros casos. Ao Papa foram negadas todas as fontes de ingressos monetários, como o Óbulo de São Pedro.

Não aceitando as decisões do Papa, o parlamento validou o matrimónio entre Henrique e Ana Bolena com a Primeira Lei de Sucessão ("Act of Succession") de 1534. A filha de Catarina, Lady Maria, foi declarada ilegítima, e os descendentes de Ana Bolena passaram a entrar na linha de sucessão real. Todos os adultos foram obrigados a reconhecer as previsões desta lei; quem não o fizesse era condenado à prisão perpétua. A publicação de qualquer escrito alegando que o matrimónio de Henrique com Ana era inválido, resultava em uma acusação de alta traição, que poderia ser castigado com pena de morte.

A oposição às políticas religiosas de Henrique foi rapidamente suprimida. Vários monges dissidentes foram torturados e executados. Cromwell, para quem foi criado o posto de "Vice-gerente espiritual" foi autorizado a visitar mosteiros, supostamente para assegurar-se de que seguiam as instruções reais, mas na prática para fazer suas riquezas. Em 1536, uma lei do Parlamento permitiu que Henrique confiscasse as possessões dos mosteiros deficitários (aqueles com arrecadação anual de 200 libras ou menos).

[editar] A execução de Ana Bolena

Em 1536, a rainha Ana Bolena começou a perder o favor de Henrique. Depois do nascimento da princesa Isabel, Ana teve duas gestações que terminaram em aborto ou morte da criança. Enquanto isso, Henrique começava a prestar atenção em outra cortesã, Jane Seymour. Talvez animado por Thomas Cromwell, Henrique fez que Ana fosse presa sob a acusação de bruxaria (para convertê-lo em seu marido), de ter relações adúlteras com cinco homens, de incesto (com seu irmão Jorge Bolena, o Visconde de Rochford), de injuriar o Rei e conspirar para assassiná-lo, com o agravante de traição. As acusações eram inteiramente fabricadas. A Corte que tratou do caso foi presidida pelo próprio tio de Ana, Thomas Howard, Duque de Norfolk. Em maio de 1536, Ana e seu irmão foram condenados à morte, entre a fogueira ou a decapitação, o rei escolheu que Ana fosse decapitada. Os outros quatro homens sobre os quais foram apontadas acusações de ter relações com Ana, foram condenados à decapitação. Lord Rochford, irmão de Ana, foi decapitado depois do julgamento. Ana também foi decapitada pouco tempo depois.

[editar] O nascimento do príncipe herdeiro

Um dia depois da execução de Ana Bolena, em 1536, Henrique VIII ficou noivo de Jane Seymour e dez dias depois casou-se com ela.

A Segunda Lei de Sucessão de 1536 declarou que os filhos da rainha Jane seriam os próximos dentro da linha sucessória, excluindo Lady Maria e Lady Isabel.

Jane deu a luz a um filho, príncipe Eduardo em 1537, e morreu poucas semanas depois, em 24 de outubro devido a septicemia após parto. Logo depois da morte de Jane, a corte inteira guardou luto com Henrique por algum tempo. O Rei a considerou sempre sua "verdadeira" esposa, ao ser a única que lhe deu o herdeiro varão que tão desesperadamente sonhava.

[editar] Os Atos da União

Na época de seu casamento com Jane Seymour, Henrique concedeu sua aprovação à Constituição de Gales ("Laws in Wales Act") entre 1535 e 1542, que anexou legalmente Gales com a Inglaterra, fazendo ambos um só país. A lei decretou o uso exclusivo do inglês para os procedimentos oficiais em Gales, contrariando aos numerosos falantes da língua galesa.

Henrique continuou a perseguição a seus oponentes religiosos. Em 1536 iniciou-se no norte da Inglaterra uma revolta conhecida como a "Peregrinação da Graça" ("Pilgrimage of Grace"). Para acalmar aos católicos romanos rebeldes, Henrique concedeu poderes ao Parlamento, e decretou um perdão geral a todos os envolvidos. Não cumpriu nenhuma de suas promessas, e uma segunda revolta foi iniciada em 1537. Os líderes da rebelião foram acusados de traição e executados. Em 1538, Henrique ordenou a destruição dos santuários da Igreja Católica Romana e neste mesmo ano, todos os mosteiros existentes tinham sido fechados, e suas propriedades transferidas para a Coroa.

Como recompensa por sua eficiência, Thomas Cromwell foi nomeado Conde de Essex. Abades e priores perderam seus assentos na Câmara dos Lordes, e só os arcebispos e bispos formaram a representação eclesiástica de corpo. Os "lordes espirituais", como eram conhecidos os membros do clero com lugares na câmara dos lordes, foram pela primeira vez superados em número pelos lordes temporais.

[editar] Últimos anos

Henrique desejou casar-se novamente. Thomas Cromwell, agora Conde de Essex, sugeriu o nome de Ana de Cleves, irmã do Duque de Cleves, que tinha sido um importante aliado no caso do ataque da Igreja Católica à Inglaterra. O pintor Hans Holbein foi mandado ao Ducado de Cleves para fazer um retrato de Ana para o Rei. Depois de ver o retrato de Ana e receber descrições complementares a respeito da mesma, Henrique decidiu se casar com Ana. Quando Ana chegou a Inglaterra, Henrique achou-a pouco atraente, porém se casou com ela em 6 de janeiro de 1540.

Henrique decidiu terminar o casamento, não somente por causa de seus sentimentos mas também por considerações políticas. O Duque de Cleves tinha entrado numa disputa com o Sacro Império Romano, com o qual Henrique não queria entrar em disputa. A nova rainha, Ana, foi inteligente o bastante para não deixar Henrique pedir a anulação do casamento e alegou que o mesmo não havia sido consumado. O casamento portanto foi anulado e Ana recebeu o título de "Irmã do Rei".

Em 28 de julho de 1540, Henrique casou-se com a jovem Catarina Howard, prima de Ana Bolena. Ele estava encantado com a nova rainha. Logo após o casamento, entretanto, Catarina teve um caso com o cortesão Thomas Culpeper. Ela também empregou como seu secretário, Francis Dereham, com quem tinha tido um caso antes de se casar com Henrique VIII. Thomas Cranmer apresentou evidências das atividades extra-conjugais da rainha, a Henrique e, embora este não tivesse acreditado, mandou Cranmer conduzir investigações que acabaram resultando na implicação de Catarina. Quando interrogada, a Rainha admitiu o caso com Dereham mas alegou que foi forçada por ele a ter esta relação extra-conjugal, porém Dereham delatou o relacionamento de Catarina com Thomas Culpeper. O casamento com Catarina foi anulado rapidamente após sua execução. Como no caso de Ana Bolena, Catarina Howard pode ter sido vítima de uma acusação falsa de adultério, porém nada conseguiu ser provado.

Henrique VIII em 1542.
Henrique VIII em 1542.

Henrique casou-se com sua última mulher em 12 de julho de 1543, a rica viúva Catarina Parr. Ela e Henrique tiveram um casamento cheio de discussões sobre religião, ela era radical e Henrique conservador. Embora isso desagradasse ao Rei, ela sempre se salvou mostrando-se submissa. Ela ajudou a reconciliação de Henrique com suas duas filhas, Lady Mary e Lady Isabel. Em 1544, uma lei do Parlamento colocou-as de volta na linha de sucessão ao trono inglês após o príncipe Eduardo, embora elas continuassem ilegítimas.

A tirania de Henrique tornou-se mais aparente com o avanço da idade e a queda de sua saúde. Uma onda de execuções políticas, que começaram com Edmund de la Pole (o Duque de Suffolk) em 1513 e terminaram com Henrique (Conde de Surrey) em janeiro de 1547.

[editar] Morte

Em seus últimos anos, Henrique engordou consideravelmente, com uma medida de cintura de 137 centímetros, e possivelmente sofrendo de gota.

A conhecida hipótese sobre que sofria de sífilis foi difundida pela primeira vez uns cem anos depois de sua morte. Argumentos mais recentes sobre esta possibilidade provêm de um maior conhecimento desta doença, que permite supor que Eduardo VI, Maria I e Isabel I mostraram todos sintomas característicos de sífilis congênita.

A obesidade de Henrique data de um acidente de Justa em 1536, onde sofreu uma ferida em um músculo que não só lhe impediu de realizar atividade física, mas também gradualmente derivou em uma úlcera que indiretamente pode ter levado a morte.

Henrique VIII faleceu em 28 de janeiro de 1547 no palácio de Whitehall. Foi sepultado na Capela de São Jorge, no castelo de Windsor, ao lado de sua esposa, Jane Seymour. Posteriormente, seus três filhos se sentaram sucessivamente no trono da Inglaterra.

[editar] Títulos e armas

Escudo de Henrique como Duque de York.
Escudo de Henrique como Duque de York.

Henrique VIII foi o primeiro monarca inglês a utilizar regularmente o tratamento de "Majestade", embora as alternativas "Alteza" e "Graça" também fossem utilizados.

Foram feitas várias alterações ao tratamento real durante seu reinado. Henrique originalmente utilizou o título "Henrique o Oitavo, pela graça de Deus, Rei de Inglaterra, França e Lorde da Irlanda". Em 1521, por força de uma subvenção por parte de Papa Leão X, que o elogiou pelo livro de Henrique, Defesa dos Sete Sacramentos, atacando Martinho Lutero, o tratamento passou a ser "Henrique o Oitavo, pela graça de Deus, Rei da Inglaterra e da França, Defensor da Fé, e Lorde da Irlanda". Na sequência da excomunhão de Henrique, o Papa Paulo III rescindiu a concessão do título de "Defensor da Fé", mas uma lei do Parlamento declarou que ela permanecia válida, e ele continuou a usá-la, bem como todos os seus sucessores, até aos dias de hoje.

Em 1535, Henrique acrescentou a "frase de supremacia" para o tratamento real, que passou a ser "Henrique o Oitavo, pela graça de Deus, Rei da Inglaterra e da França, Defensor da Fé, Lorde da Irlanda e da Igreja da Inglaterra, Chefe Supremo na Terra". Em 1536, a frase "da Igreja da Inglaterra" mudou para "da Igreja da Inglaterra e também da Irlanda".

Em 1541, o Parlamento irlandês mudou o título de Henrique, de "Senhor da Irlanda" para "Rei da Irlanda", com o Ato da Coroa da Irlanda de 1542, depois de terem sido avisados de que muitos irlandeses, consideravam o Papa como o verdadeiro chefe do seu país, com o Senhor agindo como um mero representante. A razão pela qual os irlandeses consideravam o Papa como seu soberano era de que a Irlanda tinha inicialmente sido dada ao rei Henrique II da Inglaterra pelo Papa Adriano IV, no século XII como um território feudal submetido ao poder papal. A reunião do Parlamento irlandês que proclamou Henrique VIII da Irlanda foi o primeiro encontro em que participaram os chefes gaélico-irlandeses, bem como os aristocratas anglo-irlandeses. O tratamento "Henrique o oitavo, pela graça de Deus, Rei de Inglaterra, França e Irlanda, Defensor da Fé e da Igreja da Inglaterra e da Irlanda, também Chefe Supremo na Terra" permaneceu em uso até ao final do reinado de Henrique.

O lema de Henrique foi Loyal Coeur (Verdadeiro Coração) e ele tinha-o bordado nas suas roupas sob a forma de um símbolo de um coração com a palavra "fiel". O seu emblema era a Rosa de Tudor e a ponte levediça de Beaufort.

Como duque de York, Henrique usou as armas do seu pai (ou seja, as do reino), diferenciada por um rótulo de três pontas. Como rei, as armas de Henrique foram as mesmas usadas pelos seus predecessores, desde Henrique IV: Quartelado, três flores-de-lis de ouro sobre fundo azul (para a França) e três leões de ouro sobre fundo vermelho (para a Inglaterra).

[editar] Ascendência

[editar] Descendência


Nome Nascimento Falecimento Notas
Com Catarina de Aragão (casamento em 11 de junho de 1509, anulação em 23 de maio de 1533; faleceu em 7 de janeiro de 1536)
Menina sem nome 31 de janeiro de 1510 31 de janeiro de 1510  
Henrique, Duque de Cornwall 1 de janeiro de 1511 22 de fevereiro de 1511  
Menino sem nome novembro de 1513 novembro de 1513  
Henrique, Duque de Cornwall dezembro de 1514 dezembro de 1514  
Rainha Maria I 18 de fevereiro de 1516 17 de novembro de 1558 casada em 1554 com Felipe II da Espanha; sem descendência
Menina sem nome 10 de novembro de 1518 10 de novembro de 1518  
Com Ana Bolena (casamento em 25 de janeiro de 1533, anulação em 1536; foi executada em 19 de maio de 1536)
Rainha Isabel I 7 de setembro de 1533 24 de março de 1603   nunca se casou, sem descendência
Henrique Tudor (II) 1534 1534 Os historiadores não sabem ao certo se o menino morreu no mesmo dia que nasceu ou se foi aborto. Tão pouco se sabe com certeza se foi realmente um menino.
Eduardo Tudor (I) 29 de janeiro de 1536 29 de janeiro de 1536  
Com Jane Seymour (casamento em 30 de maio de 1536; faleceu em 25 de outubro de 1537)
Rei Eduardo VI 12 de outubro de 1537 6 de julho de 1553  
Com Ana de Cleves (casamento em 6 de janeiro de 1540, anulação em 1540; morreu em 17 de julho de 1557)
sem descendência
Com Catarina Howard (casamento em 28 de julho de 1540, anulação em 1541; foi executada em 13 de fevereiro de 1542)
sem descendência
Com Catarina Parr (casamento em 12 de julho de 1543; morreu em 5 de setembro de 1548)
sem descendência
Com Elizabeth Blount (Amante de Henrique VIII)
Henry Fitzroy ou Henrique Fitzroy, Duque de Richmond e Somerset 15 de junho de 1519 18 de junho de 1536 ilegítimo; casado em 1533 com Lady Maria Howard; sem descendência
Com Maria Bolena (Amante de Henrique VIII e irmã de Ana Bolena)
Catarina Carey 1524 15 de janeiro de 1568 alguns historiadores dizem ser uma filha ilegítima de Henrique VIII
Henrique Carey, Primero Barão de Hunsdon 4 de março de 1526 23 de julho de 1596 alguns diziam ser um filho ilegítimo de Henrique VIII
Com Maria Berkeley (Amante de Henrique VIII)
Sir Tomas Stucley 1525 4 de agosto de 1578 alguns diziam ser um filho ilegítimo de Henrique VIII
Sir John Perrot 1527 setembro de 1592 alguns diziam ser um filho ilegítimo de Henrique VIII
Com Joana Dyngley (Amante de Henrique VIII)
Etheldreda Malte 1529 1555 alguns diziam ser uma filha ilegítima de Henrique VIII

* Nota: Dos filhos ilegítimos de Henrique VIII, somente o Duque de Richmond e Somerset foi formalmente reconhecido pelo Rei. O parentesco dos outros filhos ilegítimos não estão esclarecidos. Também é possível que Henrique tivesse mais filhos com outras amantes não conhecidas.

[editar] Na cultura popular

Henrique VIII tem inspirado ou sido mencionado em numerosas obras artísticas e culturais, desde meios de comunicação, obras de arte, representações na cultura popular, cinema e ficção.

[editar] Bibliografia

  • The New World de Winston Churchill (1966).
  • The Reformation Parliament, 1529-1536 de Stanford E. Lehmberg (1970).
  • Henry VIII and his Court de Neville Williams (1971).
  • The Life and Times of Henry VIII de Robert Lacey (1972).
  • The Six Wives of Henry VIII de Alison Weir (1991) ISBN 0802136834.
  • English Reformations de Christopher Haigh (1993).
  • Europe: A history de Norman Davies (1998) ISBN 978-0060974688.
  • Europe and England in the Sixteenth Century de T. A. Morris (1998).
  • New Worlds, Lost Worlds de Susan Brigden (2000).
  • Henry VIII: The King and His Court de Alison Weir (2001).
  • British Kings & Queens de Mike Ashley (2002) ISBN 0-7867-1104-3.
  • Henry VIII: The King and His Court de Alison Weir (2002) ISBN 034543708X.
  • Six Wives: The Queens of Henry VIII de David Starkey (2003) ISBN 0060005505.
  • The Kings and Queens of England de Ian Crofton (2006).

[editar] Ver também

Commons
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[editar] Ligações externas


BIOGRAFIAS

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Precedido por:
Henrique VII
Rei de Inglaterra
22 de Abril de 150928 de Janeiro de 1547
Sucedido por:
Eduardo VI
Lorde da Irlanda
22 de Abril de 150928 de Janeiro de 1547
Sucedido por:
declarado rei por ato do Parlamento da Irlanda
Precedido por
Novo título
Rei da Irlanda
154228 de Janeiro de 1547
Sucedido por
Eduardo VI

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