Corvo (Açores)

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(Redirecionado de Ilha do Corvo)
Corvo
Brasão de Corvo Bandeira de Corvo
Brasão Bandeira
Localização de Corvo
Localização
Gentílico Corvense; Corvino
Área 17,13 km²
População 425 hab. (2001)
Densidade populacional 17,5 hab./km²
Número de freguesias 0 (ver texto)
Fundação do município 1832
Região Autónoma Região Autónoma dos Açores
Ilha Ilha do Corvo
Antigo Distrito Horta
Orago N. Sra. dos Milagres
Feriado municipal 20 de Junho
Código postal 9980-024 Corvo
Endereço dos
Paços do Concelho
Rua do Jogo da Bola
Sítio oficial www.cm-corvo.pt
Endereço de
correio electrónico
info@cm-corvo.pt
Municípios de Portugal
A ilha do Corvo vista do Miradouro do Caimbro, costa nordeste da ilha das Flores.
A ilha do Corvo vista do Miradouro do Caimbro, costa nordeste da ilha das Flores.
Um dos moinhos de vento tradicionais da ilha do Corvo (classificado como imóvel de interesse municipal).
Um dos moinhos de vento tradicionais da ilha do Corvo (classificado como imóvel de interesse municipal).
Umas das ruas principais da Vila do Corvo.
Umas das ruas principais da Vila do Corvo.
O Porto da Casa, o cais comercial da ilha do Corvo.
O Porto da Casa, o cais comercial da ilha do Corvo.
A antiga fábrica de manteiga da extinta Cooperativa Agrícola Corvense.
A antiga fábrica de manteiga da extinta Cooperativa Agrícola Corvense.
A costa sueste do Corvo à descolagem da pista 12 do aeródromo do Corvo.
A costa sueste do Corvo à descolagem da pista 12 do aeródromo do Corvo.
Imagem obtida por satélite da ilha do Corvo (Landsat).
Imagem obtida por satélite da ilha do Corvo (Landsat).
Ilha do Corvo e a parte norte da ilha das Flores. Foto tirada  de bordo de um Space Shuttle da NASA.
Ilha do Corvo e a parte norte da ilha das Flores. Foto tirada de bordo de um Space Shuttle da NASA.
Mapa da ilha do Corvo.
Mapa da ilha do Corvo.

A ilha do Corvo é a menor das ilhas do Arquipélago dos Açores, localizando-se no Grupo Ocidental, a norte da Ilha das Flores. A ela corresponde territorialmente o município do Corvo, o único dos concelhos da República Portuguesa que não tem qualquer freguesia, já que, nos termos do artigo 86.º do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, este nível de divisão territorial não existe na ilha. As funções dos órgãos de freguesia são assumidos pelos correspondentes órgãos municipais.

Índice

[editar] Geografia

A ilha ocupa uma superfície total de 17,13 km², com 6,5 km de comprimento por 4 km de largura. Situa-se a 39º 40’ de latitude Norte e 31° 05’ de longitude Oeste. Dista da ilha das Flores, 6 milhas náuticas. É formada por uma única montanha vulcânica extinta - o Monte Gordo, coroado com uma ampla cratera de abatimento chamada localmente de Caldeirão, com 3,7 km de perímetro e 300 metros de profundidade. Nela se podem observar várias lagoas, turfeiras e pequenas "ilhotas", duas compridas e cinco redondas. O ponto mais alto da ilha é o Morro dos Homens no rebordo sul do Caldeirão, com 718 metros de altura acima do nível médio do mar.

Todo o litoral é alto e escarpado, constituindo o cone central do vulcão, com excepção da parte Sul, onde numa fajã lávica se estabeleceu a Vila do Corvo, a única povoação da ilha. A escarpa oeste, com uma falésia quase vertical com cerca de 700 m de altura sobre o oceano, é uma das maiores elevações costeiras existentes no Atlântico.

As terras imediatamente em redor da única povoação da ilha e uma pequena zona abrigadas na costa leste (as Quintas e Fojo) são as únicas em que é possível praticar a agricultura e manter algumas árvores de fruto. As melhores pastagens para o gado ficam mais para norte, nas chamadas Terras Altas.

Na enseada sul, denominada Enseada de Nossa Senhora do Rosário, existem três cais de desembarque – o Porto Novo (não usado), o Porto do Boqueirão e o Porto da Casa, o maior e o único utilizado no tráfego comercial. O Portinho da Areia, no extremo oeste da pista do aeroporto, é o único areal da ilha e a sua principal zona balnear.

O clima é húmido, com 915,7 mm de precipitação média anual, mas ameno, embora ventoso, com temperatura média anual de 17,6°C na Vila, com temperaturas médias mensais que variam entre os 14°C em Fevereiro e 20°C em Agosto. Nas zonas altas os nevoeiros são quase permanentes. A agitação marítima, particularmente do quadrante oeste, é muito elevada, resultando numa elevada erosão costeira.

A humidade relativa do ar oscila entre 74% em Outubro e 85% em Junho, o mês em que os nevoeiros são mais frequentes (‘’nevoeiros do São João’’).

[editar] Geologia

A ilha localiza-se sobre a placa tectónica norte americana, a oeste do rifte da Crista Média Atlântica (sigla CMA), edificada sobre fundo oceânico com cerca de 10 milhões de anos. As ilhas das Flores e do Corvo emergem do mesmo banco submarino, de orientação NNE-SSO. A sua tectónica é controlada por falhas orientadas aproximadamente Norte-Sul, paralelas à Crista Média Atlântica e por falhas transformantes com direcção Oeste-Este, que segmentam o vale do rifte. A ilha corresponde a um vulcão do tipo central, que começou a emergir há cerca de 730 mil anos. O colapso da cratera terá ocorrido há 430 mil anos. Antes da formação da cratera, estima-se que o cone central teria cerca de 1 000 metros de altitude.

Aliado à erosão marinha, a ilha enfrenta erosão provocada pelos ventos dominantes de nordeste e oeste. As vertentes do vulcão encontram-se parcialmente preservadas nos flancos Sul e Leste (com altitudes entre 150 a 250 metros), muito reduzidas pelo recuo das arribas litorais a norte e completamente ausentes a oeste (com altitudes entre 500 a 700 metros). O recuo das arribas já alcançou o bordo oeste da caldeira. Na vertente sul, sobressaem cones secundários – Coroínha, Morro da Fonte, Grotão da Castelhana e Coroa do Pico – que se encontram bem preservados da acção erosiva, responsáveis pelo derrames basálticos que formaram a fajã lávica (com altitudes entre 10 a 60 metros).

A extremidade noroeste da ilha constitui a Ponta Torrais, saliente e notável, em espinhaço aguçado e com cristas pontiagudas, tendo na sua face norte um pequeno ilhéu cónico, o ilhéu dos Torrais. Na costa norte e noroeste existe outro pequeno ilhéu, o Ilhéu do Torrão, e alguns recifes submersos perigosos para a navegação.

[editar] Vila do Corvo

A Vila do Corvo, também chamada erradamente de Vila Nova do Corvo, é a mais pequena dos Açores, com 425 habitantes (em 2001). A única povoação da ilha é constituída por um aglomerado de casas baixas com ruas estreitas e tortuosas que sobem as encostas, conhecidas localmente por canadas. Sofreu devido à emigração, principalmente para os EUA e Canadá. A superfície do seu concelho corresponde a toda a superfície da ilha. O concelho mais próximo é Santa Cruz das Flores, tornando este o local habitado mais isolado de Portugal.

Durante o Inverno, as ligações marítimas, apesar de regulares, são fortemente condicionadas pelo estado do mar e pelo vento já que o Porto da Casa, o pequeno molhe que serve a ilha, não fornece abrigo que permita a operação com tempo adverso. No entanto, durante o Verão, chega a haver várias ligações por dia, usando barcos rápidos que fazem o trajecto entre o Corvo e Santa Cruz das Flores em cerca de 45 minutos.

[editar] História

Nos mapas genoveses do século XIV, nomeadamente no Atlas Mediceu de 1351, é mencionado a Insula Corvi Marini (Ilha dos Corvos Marinhos) entre as sete ilhas que compunham o arquipélago, mas é improvável que esta designação se refira especificamente a esta ilha, apesar de ter sido a origem do nome. É provável ser uma designação para ambas as ilhas do Grupo Ocidental do Arquipélago dos Açores, como parece ser o caso no chamado Mapa Catalão de 1375.

Na fase de exploração portuguesa do Atlântico sabe-se que foi Diogo de Teive quem achou as ilhas do Grupo Ocidental dos Açores, no regresso de sua 2.ª viagem de exploração, em 1452. Terá sido descoberta em simultâneo com a Ilha das Flores, já que as ilhas se avistam mutuamente. A sua designação henriquina é Ilha de Santa Iria, mas foi também chamada de Ilhéu das Flores, ilha da Estátua, ilha do Farol, ilha de São Tomás e ainda de Ilha do Marco, nome que persistiu durante alguns séculos em razão do monte do Caldeirão servir como referência geográfica para os marinheiros.

Apesar da incerteza quanto à data do achamento português da ilha, é seguramente anterior a 20 de Janeiro de 1453, data em que o rei D. Afonso V de Portugal faz doação da ilha, e da vizinha ilha das Flores, a seu tio D. Afonso de Portugal, duque de Barcelos.

Após várias tentativas falhadas de povoamento, iniciadas na década de 1510, a 12 de Novembro de 1548, Gonçalo de Sousa, 2.º capitão do donatário das ilhas das Flores e do Corvo, é autorizado a mandar para ilha escravos (mulatos, provavelmente oriundos da ilha de Santo Antão, arquipélago de Cabo Verde) de sua confiança como agricultores e criadores de gado.

Segundo frei Diogo das Chagas, o povoamento inicial da ilha começou com o envio de uma expedição de 30 pessoas, chefiados pelo terceirense Antão Vaz de Azevedo, mas a expedição não terá tido grande sucesso. Sabe-se, contudo, que por volta de 1580, colonos da Ilha das Flores se fixam na ilha, a qual passa a partir de então a ser permanentemente habitada. Os corvinos desde então levaram uma existência pacata em quase isolamento, dedicando-se à agricultura, à pastorícia e a pesca. Sofreu diversas incursões de corsários e piratas, mas os corvinos souberam impor-se, muitas vezes aliando-se aos incursores e participando activamente na sua actividade. Em troca de protecção e dinheiro, a ilha fornecia água, alimentos e homens, ao mesmo tempo que permitia tratar os enfermos e reparar os navios.

Em 1587, o Corvo foi saqueado e suas casas queimadas pelos corsários ingleses, que haviam atacado as Lajes das Flores. No ano de 1632, a ilha sofreu duas tentativas de desembarque de piratas argelinos (território então parte do Império Otomano), os famosos piratas da Barbária, no cais Porto da Casa. Duzentos corvinos usaram tudo ao seu dispor para repelir os atacantes que acabaram por desistir com baixas. A imagem de Nossa Senhora do Rosário foi colocada na Canada da Rocha e daí, diz a lenda que ela protegeu a população das balas disparadas.

Foi o segundo pároco da ilha, o florentino Inácio Coelho, irmão do cronista frei Diogo das Chagas. Foi ele quem conseguiu que D. Martinho de Mascarenhas, 2.º capitão do donatário, assumisse o sustento do pároco, bem como a ele se deve a presumível redacção e divulgação dos factos e atribuição à Virgem Maria do milagre da vitória dos corvinos sobre os piratas. A partir de então, a imagem passou a ser chamada de Nossa Senhora dos Milagres.

A paróquia do Corvo foi criada em 1674. Antes dessa data, era visitada anualmente por um padre de Santa Cruz das Flores. Foi primeiro pároco da ilha, o faialense Bartolomeu Tristão.

No século XVIII, com a chegada dos barcos baleeiros norte-americanos à Ilha das Flores para recrutar tripulação e arpoadores, já que os corvinos eram apreciados pela sua coragem, iniciou-se uma estreita relação com a América do Norte, que passou desde então a ser o destino de eleição para a emigração corvina e de onde chegaram praticamente todas as novidades à ilha, a qual manteve durante muito tempo uma relação mais estreita com Boston do que com Lisboa. A emigração clandestina era uma constante da vida da ilha, apesar dos esforços repressivos das autoridades portuguesas, preocupadas com a fuga ao serviço militar obrigatório e com a perda de mão-de-obra.

Os corvinos tinham de pagar tributo aos seus capitães do donatário e, a partir de 1759, com morte a 8.º duque de Aveiro e conde de Santa Cruz, à Coroa. Foi Mouzinho da Silveira, impressionado pela quase escravidão em que vivia o povo do Corvo, obrigado a comer pão de junça para poder pagar o tributo a que se encontrava obrigado, quem propôs a redução para metade do pagamento em trigo e anulou o pagamento em dinheiro, fazendo assim a felicidade dos corvinos. Foi Manuel Tomás de Avelar, o chefe delegação de corvinos que foi a Angra do Heroísmo fazer a petição, causando pela sua sabedoria e maneiras o espanto da liderança liberal da Regência de Angra. A impressão foi tal que Mouzinho da Silveira, hoje lembrado como patrono da Escola Básica Integrada do Corvo, anos depois escreveria no seu testamento que gostaria de estar sepultado na ilha, cercado de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecidas. O decreto, datado de 14 de Maio de 1832, e assinado em Ponta Delgada por D. Pedro IV, reduz a metade (20 moios) o pagamento em trigo que os corvinos faziam a Pedro José Caupers, então donatário da Coroa, e elimina o pagamento em dinheiro de 80 000 réis. Em contrapartida, a Coroa assume indemnizar o donatário. O tributo apenas foi completamente abolido em 1835.

O príncipe Regente D. Pedro IV, em 21 de Junho de 1832, elevou a povoação do Corvo a categoria de vila e sede de concelho. O decreto manda que a nova vila se chame Vila do Corvo, e não Vila Nova como pró vezes aparece escrito. Antes disso, esteve sob jurisdição de Santa Cruz das Flores, sendo uma das freguesias daquele concelho.

Em 1886, o Governador Civil do Distrito da Horta, Manuel Francisco de Medeiros, quando visitou a Vila do Corvo indagou quais eram as suas aspirações. Foi-lhe pedido apenas uma Bandeira Nacional para saudar os barcos que por aqui passavam.

Durante as suas expedições oceanográficas ao Atlântico, o príncipe Alberto I do Mónaco visitou demoradamente a ilha, recolhendo imagens fotográficas de extraordinário interesse, hoje no Museu Oceanográfico do Mónaco e apenas parcialmente publicadas.

A ilha foi também visitada em 1924 pelo escritor português Raul Brandão, que com a sua obra Ilhas Desconhecidas muito contribuiu para a mitificação das vivências dos habitantes do Corvo, criando a imagem de uma idílica república comunitária que persistiu até quase aos nossos dias.

A partir do início do século XIX assiste-se ao crescimento constante da emigração para os Estados Unidos da América e Canadá, com interregno entre 1925 e 1955, num processo que se prolongou até meados da década de 1980.

Na década de 1960 a população da ilha viveu em constante oposição ao regime florestal imposto sobre o baldio da ilha, regime esse que levou ao fim da produção de lã, fazendo desaparecer totalmente as ovelhas da ilha, e com elas as tradições ligadas à tosquia, cardagem, fiação e tratamento das lãs, antes aspectos centrais da cultura corvina.

Com a inauguração do tráfego aéreo comercial no Aeroporto da Ilha das Flores, em 27 de Abril de 1972, os corvinos começaram a sentir-se menos isolados do resto do mundo.

Em 28 de Setembro de 1983, foi inaugurado o Aeródromo do Corvo, (código IATA: CVU) com uma pista de 800 metros. De início, as ligações aéreas entre o Corvo e a Terceira (Lajes) eram asseguradas por um avião C-212 Aviocar da Força Aérea Portuguesa. Em 1991, é substituído pelo pequeno avião Dornier 228-212 da SATA Air Açores, fazendo as ligações com Santa Cruz das Flores, Horta e Terceira (Lajes). Faz escala na ilha 3 vezes por semana - na 2ª, 4ª e 6ª feiras.

[editar] Monumentos e Museus

Do património arquitectónico existente, destaca-se a Igreja de Nossa Senhora dos Milagres, construída em 1795, que veio substituir a primitiva ermida. No seu interior, podem admirar-se a estátua da padroeira, obra flamenga do século XVI da escola de Malines, um Cristo em marfim e uma imagem em madeira de Nossa Senhora da Conceição.

Além da igreja, é digna de ser visitada a Casa do Espírito Santo, no típico Largo do Outeiro, fundada a 1871, seguindo a traça simétrica típica das Casas do Espírito Santo das ilhas das Flores e Corvo.

Junto ao aeroporto existem os interessantes moinhos de vento típicos do Corvo, classificados como imóveis de interesse municipal. Dos cerca de 7 moinhos que existiram na ilha, apenas 3 moinhos se mantêm em funcionamento.

O casario da vila é um verdadeiro museu vivo, também classificado como conjunto de interesse público, onde as pessoas mais antigas preservam no falar expressões arcaicas únicas com uma evolução linguística muito própria.

Em duas casas tradicionais cuidadosamente recuperadas foi instalado em 2007 um moderno centro interpretativo cultural e ambiental da ilha, com espaço museológico e galeria para exposições temporárias.

Um local a não perder é o miradouro natural do Morro do Pão de Açúcar, infelizmente desfeiteado por uma lixeira a céu aberto. O troço ascendente da estrada que conduz ao interior da ilha também proporciona vistas de grande beleza sobre a vila, a fajã onde ela se situa e a vizinha ilha das Flores.

O Caldeirão, a cratera central da ilha, com as suas lagoas e turfeiras, é uma das mais belas paisagens dos Açores. Foi ainda constituída ao abrigo da Directiva Habitats e da Directiva Aves o Sítio de Importância Comunitária Costa e Caldeirão do Corvo e a Zona de Protecção Especial da Costa e Caldeirão, hoje integrados no Parque Natural da Ilha do Corvo criado pelo Decreto Legislativo Regional n.º 56/2006/A, de 22 de Dezembro.

A ilha possui dois farolins para ajuda à navegação: um na Ponta Negra (desde 1910); o outro no Canto da Carneira, nas coordenadas geográficas 39º 42,98’ N e 031º 05,15’ W (desde 1965, agora inactivo).

[editar] Povoamento, demografia e política

A ilha do Corvo apresenta uma estrutura de povoamento muito diferente das restantes ilhas açorianas, apenas tendo paralelo no lugar da Ponta Ruiva e nalguns pequenos povoados da costa oeste da ilha das Flores. Em vez do tradicional povoamento ao longo de vias de comunicação, numa estrutura dispersa mas orientada, a Vila do Corvo anichou-se sobre a falésia que delimita o Porto da Casa, assumindo uma estrutura de grande densidade habitacional, assente sobre pequenas vielas, mais característica dos povoados medievais, do que do povoamento renascentista do Novo Mundo.

Note-se que para oeste do eixo que viário que do Porto passa no Jogo da Bola apenas existem edificações recentes, a vasta maioria do último quartel do século XX. Esta preferência por um povoamento de grande densidade, que obrigou homens e animais (porcos e galinhas) a partilharem o mesmo espaço, sem ao menos deixar terreno para as tradicionais hortas e quintais, parece determinado por duas condicionantes: a exiguidade do terreno e a sua propriedade (o que explica pouco, já que para oeste da vila existia amplo espaço); e factores de ordem cultural e de procura de abrigo comum num ambiente varrido pelos ventos, o que explica a semelhança com a Ponta Ruiva. Qualquer que sejam os factores determinantes, a Vila do Corvo apresenta todas as características de um povoado de montanha, ainda que construído à beira mar, e uma estrutura urbana que aponta mais para o norte de África do que para a Europa da Renascença.

A evolução demográfica da ilha do Corvo foi a seguinte:

Evolução da população da ilha do Corvo
1864 1878 1890 1900 1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001
Vila do Corvo  883  880  806  808  746  661  676  691  728  681  485  370  393  425

Ao longo dos últimos dois séculos a evolução da população do Corvo apresenta períodos distintos, essencialmento fruto das políticas de imigração dos Estados Unidos da América:

  • 1800-1920 — Durante este período a população decresceu paulatinamente, passando dos quase 900 habitantes de 1864 até aos 661 de 1920, resultado da forte corrente migratória para os Estados Unidos da América, ligada à baleação da Nova Inglaterra, em cuja a órbita a ilha se encontrava desde finais do século XVIII. Esta corrente migratória foi na maior parte constituída por jovens emigrantes clandestinos, resultado da política de restrição à emigração e de verdadeiro cerco para o recrutamento militar, que se mantinha mesmo quando a fome grassava devido à sobrepopulação da ilha. Apesar de ter sido uma constante durante todo o século XIX, a proibição da emigração não tinha na ilha quem a fizesse cumprir. A taxa de decréscimo da população neste período foi lenta, resultado do grande saldo fisiológico que compensava a emigração.
  • 1920-1950 — A Primeira Guerra Mundial e depois a Grande Depressão da década de 1930, levaram ao estancar da corrente migratória, particularmente quando os Estados Unidos da América adoptaram o Johnson-Reed Act, fixando quotas que excluíam quase totalmente os cidadãos portugueses, restrição que se prolongou até depois da Segunda Guerra Mundial. Neste período, a paragem da emigração para a América, levou a um novo crescimento da população: em três décadas o número de corvinos subiu dos 661 para 728 em 1950, tendo sido ultrapassado em meados da década de 1950 os 800 residentes.
  • 1950-1980 — Nas décadas de 1950 e 1960 a crescente pobreza, a que se veio juntar o endurecimento do recrutamento militar, consequência do dealbar da Guerra Colonial, criaram uma grande pressão demográfica, que encontrou novamente escape para os Estados Unidos em consequência da aprovação do Kennedy-Pastore Act[1]. O resultado foi o rápido declínio da população da ilha, que em 1981 atingia o seu mínimo dos últimos três séculos, com apenas 370 residentes.
  • 1980- .... — A partir de meados da década de 1980, a tendência para o declínio inverteu-se, e a população voltou a crescer significativamente, o que diferencia o Corvo das restantes ilhas. A explicação para esta discrepância está na desproporcionada despesa pública na ilha, em particular a geração artificial de mais de meia centena de empregos pelo Município (que apesar de financiado pelo escalão mínimo da Lei das Finanças Locais, ainda assim recebe uma capitação desproporcionadamente grande face à exiguidade da população residente), e pela Escola Básica Integrada Mouzinho da Silveira, que com pouco mais de 40 alunos gerou uma quinzena de empregos entre docentes e funcionários de apoio. Com o investimento público a continuar alto, com a criação de mais empregos no Lar de Idosos e na estrutura de apoio social, é de esperar que a população cresça ao longo das próximas décadas.

O concelho do Corvo conta com 350 eleitores inscritos (Autárquicas 2005). Apenas votaram 287 eleitores, ou seja, 82% dos inscritos.

[editar] Tradições, lendas e curiosidades

As festividades da ilha são a Festa do Divino Espírito Santo, a Festa de São Pedro (24 a 26 de Junho), a Festa e Romaria de Nossa Senhora dos Milagres (15 de Agosto) na qual se integra o Festival de Verão dos Moinhos.

Em 1938 foi fundada a Banda Filarmónica Lira Corvina. Realizava-se no 1.º Domingo de Maio e no 1.º Domingo de Setembro, a Festa do Fio ou Tosquia das Ovelhas, cuja a tradição foi abandonada e ainda não foi recuperada. Gastronomicamente, são típicas as Couves da Barca, o Feijão Assado à Corvo, os bolos de Erva do Calhau, a broa de milho e o queijo local. Do artesanato, destaca-se as barretas, mantas e as fechaduras de madeira.

Entre as lendas da ilha encontra-se a Lenda da Ermida de Nossa Senhora dos Milagres da ilha do Corvo e muito famosa lenda do Lenda do Cavaleiro da ilha do Corvo, já deu origens a livros.

[editar] A estátua equestre

Durante séculos falou-se de uma misteriosa estátua de um cavaleiro apontando para Oeste, como prova da presença de antigos e ignorados navegadores que tinham deixado esse memorial na ilha. A estátua certamente nunca terá existido, mas a lenda foi citada por historiadores renascentistas como um facto verídico[2]. A lenda da estátua equestre é considerado pelos historiadores modernos como um rochedo sugestivo ou um invenção com intuito de valorizar a ilha e instigar a curiosidade pelas terras a Ocidente. Contudo, é uma crença quase tão antiga quanto a colonização da ilha e faz parte do seu folclore local. A arqueologia não descobriu quaisquer indícios nos Açores, quanto à presença humana anterior ao povoamento dos portugueses.

[editar] Moedas fenícias encontradas no Corvo

Quando, em 1749, foram encontradas várias moedas alegadamente fenícias ou cartaginesas na ilha do Corvo, é natural que os defensores da tese da existência da Estátua Equestre tenham rejubilado. A lógica era: se havia moedas, é porque houvera, fenícios na Ilha do Corvo. É consenso que não há razões para duvidar da veracidade desse achado, nem da autenticidade dessas moedas de ouro e cobre. Isso por si só não prova que aquele povo do norte de África tenha alcançado as ilhas do Grupo Ocidental açoriano. O achado, a ter-se verificado, teve por certo outra origem, bem mais moderna e também mais fácil de sustentar.

A crer no relato do numismata sueco Johann Frans Podolyn a quem, no dizer do próprio, teriam sido oferecidas, em 1761, algumas dessas moedas, não restam dúvidas quanto à veracidade da descoberta. É o próprio Podolyn quem afirma:

No mês de Novembro de 1749, após alguns dias de ventos tempestuosos de Oeste, que puseram a descoberto parte dos alicerces de um edifício em ruínas na costa da ilha do Corvo, apareceu uma vasilha de barro negro, quebrada que continha um grande número de moedas, as quais, juntamente com a vasilha, foram levadas a um convento [3], onde as moedas foram repartidas por pessoas curiosas residentes na ilha. Algumas dessas moedas foram enviadas para Lisboa e dali mais tarde remetidas ao Padre Flórez[4], em Madrid. O número de moedas contidas na vasilha não se conhece e nem quantas foram mandadas de Lisboa, mas a Madrid chegaram 9 moedas. ... O Padre Flórez fez-me presente destas moedas quando estive em Madrid em 1761, e disse-me que no todo do achado havia apenas moedas destas 9 variedades[5].

Quanto à autenticidade das 9 moedas encontradas no Corvo, o geógrafo alemão Alexander von Humboldt afirma não haver disso a menor dúvida, visto que os seus desenhos foram comparados com as moedas conservadas no gabinete do príncipe real da Dinamarca[6]. As gravuras dessas moedas foram publicadas, primeiramente, na revista sueca Memórias da Sociedade de Gotemburgo, e, no século XX, reproduzidas na Açoreana, em 1946, e no Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, em 1947.

Recentemente foi encontrada na ilha uma moeda seiscentista oriunda do império Mogul da Índia, testemunho dos tempos em que a ilha do Marco era local quase obrigatório de passagem na viagem de regresso das Índias.

[editar] Economia

O sector primário é a principal área de actividade económica da ilha. A área agrícola ocupa cerca de 17,5% da área do concelho. O cultivo é praticado em pequenas explorações, destacando-se as culturas forrageiras, as culturas permanentes de batata e citrinos, as culturas temporárias de cereais para grão – especialmente milho, as culturas hortícolas intensivas, os prados, as pastagens permanentes e os prados temporários.

A pecuária é a principal actividade económica do sector primário, em que os bovinos, os suínos e as aves constituem as principais espécies de criação. O queijo e os lacticínios são os principais produtos. A pesca é também importante.

[editar] Ambiente e conservação da natureza

O Corvo apresenta uma densidade florestal muito baixa – de 0,6%, que corresponde a uma área de 1 hectare, salientando-se as seguintes espécies: cedro-do-mato, criptoméria e loureiros.

O concelho começa a apostar no turismo (sector terciário), oferecendo como principais actividades e atracções turísticas a volta à ilha de barco, mergulho, pesca submarina, passeios pedonais na ilha, com destaque para a subida ao Caldeirão. Existem boas condições de alojamento na ilha, com uma moderna unidade hoteleira recentemente inaugurada.

Esta ilha foi declarada no mês de Setembro de 2007 como Reserva da Biosfera pela UNESCO, na sequência de uma candidatura apresentada para esse fim pelo Governo Regional dos Açores. Esta importante classificação confirma a qualidade da biosfera desta ilha que muito variada possuindo uma rica variedade de biotopos típicos da macaronésia. Esta classificação foi aprovada pelo Bureau do Conselho Internacional de Coordenação do programa da UNESCO que reuniu em Paris.

[editar] Notas

  1. Legislação especial passado pelo Congresso dos Estados Unidos em 1958, após a erupção do Vulcão dos Capelinhos, que permitiu a entrada de 2000 famílias açorianas naquele país. Como as leis de imigração nos Estados Unidos permitiam a reunificação familiar, esta leva inicial teve um extraordinário efeito multiplicador, permitindo nas décadas seguintes a partida de mais de 120 000 açorianos.
  2. Veja Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Livro 6.
  3. Será o Convento de São Boaventura, na ilha das Flores?
  4. O Padre Enrique Flórez de Setién y Huidobro, (1701-1773), foi um conhecido historiador e numismata espanhol que pertenceu em vida à Ordem de Santo Agostinho.
  5. José Agostinho, Achados Arqueológicos nos Açores, in Açoreana, Vol. 4, fasc. 1, 1946, pág. 101-2.
  6. Exame Crítico da Arqueologia do Novo Mundo por Alexander von Humboldt, citado no Arquivo dos Açores, Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 1981, Ed. fac. pela Edição de 1881, Vol. 3, pág. 111-2.

[editar] Ligações externas

[editar] Imagens

Vila do Corvo, a única povoação da ilha do Corvo, vista do miradouro. No horizonte avista-se a ilha das Flores.
Vila do Corvo, a única povoação da ilha do Corvo, vista do miradouro. No horizonte avista-se a ilha das Flores.
Vista panorâmica do famoso Caldeirão da ilha do Corvo, com as suas lagoas e turfeiras.
Vista panorâmica do famoso Caldeirão da ilha do Corvo, com as suas lagoas e turfeiras.


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